Histórias incríveis da Tailândia #03

Diário de viagem, 11 de novembro de 2025

Distrito de Mae Wang, Chiang Mai Province

“Entre búfalos, cavernas e bolachinhas de coco: uma jornada pelo norte da Tailândia.

Em um voluntariado multicultural, o viajante brasileiro narra dias de calmaria, amizade e descoberta na região montanhosa de Chiang Mai, até chegar às profundezas da caverna de Lod.”

(Texto e fotos: André Ferreira e Gabrielė Staponaitė)

 

Sob o o bungalow: uma tarde que desapareceu junto com o sol

Na tarde de terça-feira, sentei-me embaixo de um bungalow de madeira rústica e ali permaneci por horas, observando o desaparecer lento das luzes no céu.

Enquanto o entardecer se desfazia, eu saboreava uma bolachinha de coco e tomava café em uma caneca simples, marcada com o número cinco.

Voluntariado no Norte da Tailândia: entre amigos, memórias e o cheiro da pimenta

Na casa onde eu estava, viviam pessoas de vários lugares do mundo: Argentina, México, Inglaterra, Turquia e Lituânia.

Era um voluntariado confortável, porque não exigia mais do que podíamos oferecer — e, além disso, era um espaço onde se podia fazer amigos.

As pessoas dali eram pacatas, gentis, serenas.

Link do voluntariado na Brainstorming School, em Chiang Mai

https://www.worldpackers.com/pt-BR/locations/brainstorm-homeschool

Sua primeira experiência como voluntário da Worldpackers começa aqui:

https://www.worldpackers.com/pt-BR/promo/DEHFERREIRAF1?utm_campaign=DEHFERREIRAF1&utm_medium=referral&utm_source=affiliate

“Eu e a Gabi vivíamos em uma cabana de madeira que tinha uma cozinha ampla no andar de baixo. Para subir, era necessário avançar sobre uma escadinha de madeira.”

 

Morávamos em uma ampla casa de madeira, de dois andares, com uma cozinha espaçosa no térreo

Subíamos por uma escada estreita e, ao passar pelo quarto do casal mexicano — logo ao lado do nosso —, chegávamos até a bela sacada. Ao lado da construção, uma grande árvore completava a cena, conferindo à paisagem um ar inegavelmente sonhador.

De coração, eu me sentia impaciente.

A comida tailandesa era intensa de pimenta e, mesmo com o calor constante, havia algo reconfortante em comer sopa todos os dias.

Fiz então um exercício de memória para lembrar de como tinham sido aqueles dias.

No último sábado, depois de uma aula de culinária local com nossa anfitriã, Paweena — uma mulher simpática que nos recebia em sua casa —, seguimos até a estrada do vilarejo e estendemos o polegar: iríamos de carona até o centro de Chiang Mai, a capital da província.

Nosso destino final era a pequena cidade de Pai, a cerca de 150 quilômetros ao norte, quase na fronteira com Myanmar. Não esperamos mais do que dez minutos até que alguém parasse o carro e nos levasse, generosamente, rumo ao nosso caminho.

Naquela noite, como sempre, eu fiquei tentando forçar minha cabeça, para lembrar de tudo que vinha acontecendo.

 

 

Chegamos a Pai já no começo da noite

A estrada, repleta de curvas, nos deixou um pouco enjoados — só queríamos deixar as mochilas no quarto e descansar.

Na entrada da pousada, encontramos um francês que também aguardava na recepção.

A atendente, uma jovem de nacionalidade chinesa, nos recebeu com gentileza e nos mostrou a casa.

Respiramos, sentamos.

Decidimos ir até o centro, e descobrimos um transporte para visitar a Caverna de Lod, a cerca de 55 quilômetros dali.

Mais tarde, nos sentamos em um barzinho para ouvir música ao vivo e comer kebabs preparados por uma habilidosa cozinheira muçulmana.

A chuva nos alcançou enquanto comíamos, mas a alegria da viagem era tão intensa que nada parecia capaz de nos desanimar.

 

“Conhecemos alguns franceses quando íamos visitar a lendária tribo de Karen. Eram refugiados que vieram pelas montanhas, e usavam colares gigantescos que esticavam seus pescoços desde criança.

 

O vilarejo de Karen

Acordamos cedo e, bem descansados, saímos para caminhar em jejum pelos campos vastos da região.

O ar ainda estava úmido da noite quando avistamos um casal de búfalos cobertos de lama e alguns caminhões pesados passando pela estrada.

Pouco depois, percebemos que nos aproximávamos da lendária tribo Karen.

Os Karen vieram refugiados do país vizinho, cruzando os montes em busca de paz.

As mulheres da aldeia usavam colares metálicos enormes que alongavam seus pescoços — adornos que jamais podiam ser retirados, nem mesmo para dormir.

Foi uma cena difícil de descrever: surreal.

Além dos colares, chamava atenção o comércio local.

Algumas delas vendiam jaquetas verdes e robustas, marcadas com o emblema “U.S. Army”.

Era impossível não se perguntar se aquelas peças estavam, de alguma forma, ligadas às antigas intervenções políticas norte-americanas no Sudeste Asiático.

📸 Foto: Gabi confraternizando com as mulheres da tribo Karen.

“Geralmente, encontrava alento nos meus momentos de gratidão: olhar fotos antigas, ler textos meus que escrevi anos atrás.”

 

Era como se algumas sementes lentamente já começassem a brotar no jardim da minha alma.

E eu, como bom pensador, escolhi cultivá-las com carinho.

O vilarejo de Mae Wang era pequeno e a nossa casa era longe da estrada principal (a faixa); íamos lá mesmo assim, caminhando em torno de 10 minutos para ir até o 7- eleven.

As noites aqui eram tranquilas, e realmente a melhor descrição era que se tinha muito espaço mesmo.

– Nossa maior preocupação nesses dias agora era a de ir para o Laos.

Descobri hoje que preciso de um visto, provavelmente, e que vai aumentar os custos da viagem em 250 reais.

Paciência.

Conhecemos um casal do México que me disse ser possível viajar daqui para a américa latina, o que seria, tecnicamente, 90% da minha primeira volta ao mundo.

📸 Búfalo no interior da cidade de Pai.

Meu coração vai me guiar.

 

A caverna de Lod

Ainda tínhamos meia hora livre e decidimos ir até o 7-Eleven mais próximo para comer alguma coisa antes de encontrar o grupo. No ponto de encontro, várias jovens inglesas conversavam animadamente — falavam sobre estudos, carreiras e as viagens que sonhavam fazer.

A van partiu por volta do meio-dia. As pequenas ruas de areia do vilarejo logo deram lugar às estradas sinuosas das montanhas. Nosso carro não tinha paredes nem janelas, e o vento nos envolvia por completo enquanto subíamos.

📸 Entrada da caverna de Lod, vista do barco de bambu que atravessava o pequeno rio.

A caverna de Lod ficava em um vale estreito, encravado nas montanhas do norte da Tailândia. Para chegar até sua entrada, era preciso atravessar uma pequena ponte de madeira sobre um cardume de peixes famintos. Uma guia local, sorridente e experiente, acendeu a lanterna e nos convidou a seguir adiante, iluminando o caminho para dentro da escuridão.

Uma súbita onda de vontade invadiu meu ser naquele instante, sob a luz da lua que já começava a decrescer.


📸 Menina vestindo a camisa da CBF (Conferação Brasileira de Futebol), e quie vendia comida de peixes para os cardumes na entrada da caverna.

Dentro da caverna, não se via nada além dos pontos luminosos dos outros grupos.

Aos poucos, nossos olhos se acostumavam à escuridão e revelavam o que o tempo havia moldado.

Foi o rio que, pacientemente, escavou aquela cratera na rocha — e, ainda assim, a imensa formação de calcário parecia tentar, através dos séculos, se reconstruir.

Uma menina japonesa do grupo se juntou a nós.

Escadas de madeira davam acesso às partes superiores, e seguíamos a guia local — sem ela, seria impossível se orientar ali dentro.

Qualquer passo em falso, e poderíamos nos perder para sempre

 Nas paredes, vimos pinturas rupestres que pareciam representar uma vaca.

Pilares frágeis sustentavam o teto irregular, e o toque era proibido — bastava um descuido para comprometer séculos de história.

Em certo momento, tiramos ossapatos e sentimos, sob os pés, o toque úmido e frio daquele fenômeno natural extraordinário. Foto: Barqueiro iluminado pela lanterna.

Os ecos de conversas e passos nos acompanharam o tempo todo. No alto das passarelas de madeira, a luz bruxuleante da lanterna da guia iluminava nossos caminhos — e, de algum modo, também nossos corações.

📸 Nosso grupo na entrada da caverna.

Segue essa viagem!

Embaixo, um videozinho da nossa visita aos templos de Bangkok, no segundo semestre de 2025.

Já aproveita e segue o canal. Ah, e o instagram @dehferreira.f1 tem sempre novidade fresquinha sobre essa viagem!